(Conto) O Tesouro Escarlate

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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Salenae em Qua Dez 13 2017, 20:30

A atenção de Burlin se dividiu por um momento. A música leve envolvia seu espírito, de forma a torná-lo mais reflexivo ante à situação e a pergunta de Salenae. Um sorriso brando apareceu, mas poderia ser interpretado tanto como empatia quanto ironia. Só alguns instantes depois, veio a resposta à dúvida:

— Não sei que motivos a trouxeram a Umonal, Salenae — disse ele, a voz sobressaindo aos tons da flauta. — Mas tristes são os que acreditam em amizade num lugar como este. Todos somos proscritos da capital. Lembre-se que há muito esquecemos o que essa palavra significa, assim como muitas outras normas ensinadas pelos supostos mandamentos do deus benévolo. 

A melodia terminava rapidamente. Era o bastante para os assentados se levantarem, e quem estava de pé permaneceu em sua posição. Todos agiam por uma causa comum: aplaudir o artista. Burlin acompanhou os demais, assim como a mulher, aproveitando o momento para voltar o olhar à Salenae e complementar seu raciocínio, enquanto ela ainda olhava para o bardo: 

— Gostaria de acreditar que tens sentimentos nobres, caríssima, mas suas vestes já contradizem totalmente a ideia. Posso imaginar claramente o porquê de ter sido expulsa da cidade para esta comunidade, populada indiscriminadamente por indivíduos sujos desde as entranhas da alma.

Ela olhou com desdém para o homem que acabara de conhecer, e fixou seu olhar em seus olhos enquanto falava.
- Meu caro, indivíduos que não são aceitos pela sociedade e que se unem em uma causa comum criam laços mais fortes que podes imaginar. Creio que posso confiar mais em muitos aqui que em criaturas que fingem ser algo que não são em nome de algo que não têm certeza ser real. Pelo menos aqui sabemos que somos falhos, abraçamos nossos pecados e sabemos quem realmente somos. - E deu um sorriso maléfico - Prefiro estar entre cobras conhecidas do que entre lobos fantasiados de cordeiros. Ainda não sei em qual dos dois o senhor se enquadra, mas imagino que em breve saberei. 

Embora a polidez ainda existisse em sua fala, Burlin ultrajava Salenae de forma insinuosa. Para ele, todos em Umonal eram iguais. O respeito demonstrado à priori era apenas um afago necessário, uma ponte segura para que pudesse caminhar rumo ao outro lado e, então, despejar palavras amoladas. A única coisa que ainda permanecia latente era a sua intenção perante o ato.
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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Nathan em Qui Dez 14 2017, 11:21

— Aquela que fala a Língua Maldita do Inferlis — disse o homem, suprimindo o sorriso. — Ela tem muitos acordos com o Violador, que corrompe as mentes dos aliankinos com benesses que parecem maldições aos olhos dos teryonistas. Não conheces Lady Ciadra, minha ama, mas é íntimo de Wagsa. Ela é uma das muitas mediadoras da vontade de Marilis neste mundo, assim como tu és.

Ele tinha razão. Wagsa, o Violador, estava diretamente ligado ao motivo pelo qual Nathan habitava ali. Um dos dez Lordes a serviço do deus maldito vigiava aquelas terras como um caçador voraz e ao mesmo tempo indistinto, tramando dia e noite contra o reino erguido por Berong. Para ele, o Ceifador seria o condutor das almas pérfidas dos teryonistas, quando o dragão de Majara fosse despertado e transformasse Aliank numa enorme ruína incandescente. Todavia, segundo as palavras daquele sujeito, o plano havia sido totalmente transformado, já que Garlak era a melhor chance de uma vitória rápida. Ao mesmo tempo, havia preocupação sobre a ameaça contínua que poderia proporcionar devido a sua personalidade, um problema vivenciado por séculos antes de sua queda.

— Se aceitares, desejo levá-lo até Lady Ciadra, que poderá comprovar o que lhe digo. Através dela, soubemos da sua fama, o caçador de criaturas profanas que subverteu as ordens dos asseclas sacros de Materyon. Poderás ter com ela em Umonal, enquanto organiza os últimos preparativos para a grande busca ao Tesouro Escarlate.

O outro homem suspirou. A amenidade do diálogo lhe trazia certa tranquilidade, embora tudo só se definisse quando a palavra final fosse dada pela morte e, até onde sabia, ela nunca era agradável.


— Veremos se o que dizes é verdadeiro — replicava o nathan com aparente descrença.

Sem mais palavras ele dava as costas para os dois arautos, arrastando a enorme foice sobre o chão arenoso e seco em direção a uma rocha grande e solitária à margem da estrada que levava de volta à necrópole. Uma energia púrpura semelhante à que faiscava nos olhos de Nathan começava a emanar através de seu braço como veias sombrias que formavam uma perfeita simbiose entre o ceifador e sua foice. O kalaidrin escorria pela haste de madeira e se concentrava então na lâmina curva da arma que parecia rasgar a rocha ao meio, de baixo à cima, num movimento lento, abrindo uma passagem estreita, viscosa e roxeada através da qual o denin cruzava silencioso, deixando os dois emissários vampíricos para trás, sozinhos no descampado da Região Disforme.

O destino do portal, que se fechava imediatamente após a passagem do ceifador, era a cidade de Umonal, para onde são enviados os exilados do reino de Aliank. Nathan conhecia vagamente a cidade e sua fama um tanto quanto nefasta. O capuz do manto esfarrapado ajudava a dissimular a aparência cadavérica do marilista, que perscrutava rapidamente os arredores do local onde acabara de se manifestar. Avaliava os habitantes e procurava algum lugar de fácil visibilidade, para onde se dirigia silencioso e fúnebre como a própria morte, indiferente aos olhares curiosos que poderia atrair. Ao chegar ao local escolhido, sua mão descarnada descobria a cabeça, revelando o rosto de pele fina grudada ao crânio e com cabelos ralos e oleosos. A foice terrível jazia apoiada sobre o ombro direito, como um estandarte funesto enquanto sua voz soava forte e imperativa, não dando margem para ponderações.

— Saudações, mortais. Levem-me àquela que vos chefia. Levem-me à presença de Ciadra.

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Re: (Conto) O Tesouro Escarlate

Mensagem por Yidrin Gallux em Seg Jan 15 2018, 23:03

— Solte-me! — disse Saslah, sem se debater. Queria que seu líder recobrasse a consciência e percebesse o erro que estava cometendo. — É o meu líder e serei sempre fiel a você. Mas não aceito ser tratada dessa... forma. 

Essa atitude fez com que Yidrin ficasse surpreso, um misto da sua fúria anterior com espanto estavam marcados em seus olhos. Pela primeira vez, Saslah se dirigia a Yidrin daquela maneira. Apesar da aparência destemida, ainda havia algum receio em sua voz. Sabia que podia desencadear uma erupção com tal atitude, e portanto precisava ser rápida em sua argumentação.

— Sempre procurei poupá-lo das tolices que chegavam a mim e aos demais guardiões — continuou Saslah. — Não dei importância a elas. Talvez não como deveria, e agora estou disposta a pagar pelo meu erro. Eu não tenho dúvidas de que eles estão envolvidos nisso, mas não tinha ideia de que possuíam a menor chance de nos descobrir. 



Yidrin permanecia quieto por alguns segundos, antes de soltá-la e dar alguns passos até uma certa distância dos dois, permanecendo de costas, enquanto sentia dificuldades em responder essas palavras ousadas e sinceras que vieram dela. Tinha plena noção que havia passado dos limites, explodiu sua fúria logo após impedi-la de fazer o mesmo com Misesh. No entanto também não queria se desculpar, pelo menos não na frente do pachorrento. Tinha que manter sua compostura. Então foi o próprio que salvou a pele de seu líder ao continuar o questionamento dos eventos.

— Quem são eles? — perguntou Misesh, confuso. 

— Os malditos exilados de Aliank — respondeu Saslah, olhando de soslaio para Misesh. — Há muito tentavam chegar aqui. Seu morto não significa necessariamente que conseguiram, mas é um motivo forte para nos preocuparmos. 


Exilados? Perguntava Yidrin, que havia voltado a encarar os dois e parecia estar de volta ao seu humor normal.

Misesh coçava a cabeça esperando que Saslah fosse mais direta. 

— Alguns vigias da superfície avisaram aos guardiões que homens perambulavam pelas redondezas por muito tempo, buscando algo com muito afinco nessa região. Eles não conseguiam avançar por causa dos caçadores majurks. Se fossem vistos por eles, seriam levados de volta a um povoado composto por bandoleiros da cidade de Aliank ou executados pelos próprios ursídeos. Não imaginávamos que fossem capazes de nos encontrar devido às limitações que possuíam em tempo e recursos para desbravar labirintos tão complexos quanto os nossos. Parece que ao menos um deles fugiu à regra. E não há outro jeito disso ter acontecido sem que um dos nossos, ou talvez mais, tenham traído o nosso segredo secular!

A saliva de Saslah escorria involuntariamente. Não desejava envenenar Yidrin ou Misesh, mas, assim como seu superior, se esforçava ao máximo para controlar suas emoções. De toda forma, ela sabia que em grande parte detinha a responsabilidade pela exposição do povo lacertílio. Se não tivesse tratado todos como meros subalternos, teriam menos problemas para se preocupar agora. 


— E o que eles ganham traindo a nós? Na superfície seriamos tratados como monstros, teríamos inquisidores de Aliank nos caçando com extremo fervor. O único motivo que vejo para alguém nos trair é idiotice. Acreditar que os exilados lhes darão uma situação melhor do que a que estamos agora é um pedido para morrer, e se não formos nós os algozes, então os próprios intrusos com os quais negociaram os matariam depois de terem o que querem.



Yidrin respira fundo e solta um enorme rugido enquanto joga sua cabeça para trás e arqueia suas costas um pouco também, como se o madasse para os céus, ou melhor, teto, em uma atitude extrema para acalmar os seus ânimos incendiados pelo estresse da viagem seguido por notícias horríveis somadas com a atitude de Saslah, parecida demais com a sua própria.


— Misesh, agora é a hora de não fazer jus ao nome pelo qual lhe chamam! Me leve imediatamente ao corpo que encontrou. E Saslah... Olhava para o teto da caverna ...Você está tão estressada quanto eu, mas eu preciso de você fria para caso as coisas estejam piores do que já parecem. Neste momento, só quero que se acalme e eu acredito que o melhor modo de fazer isso é por para fora. Isso é uma ordem e também o começo de sua punição. — O lakriak cruza seus braços e volta seu olhar para ela — Os detalhes do resto de como vou puni-la ficarão para nossa conversa particular. Grite, xingue, amaldiçoe algo ou alguém, você não consegue esconder sua raiva babando veneno deste modo.


Yidrin queria que ela não estivesse tão furiosa ao ponto de estar salivando veneno, e também isso era um modo de fazê-lo se sentir um pouco menos culpado por ter hostilizado um de seus melhores guardiões em um momento em que perdeu a linha. Não queria puni-la por sua atitude diante das reações dele, mas não tinha como esquecer seu deslize quanto a não repassar informações importantes por julgá-las irrelevantes. Isso ficaria para depois.
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